De um católico brasileiro para um ex-padre irlandês

De um católico brasileiro para um ex-padre irlandês

Um dos momentos mais significativos dos Jogos Olímpicos de 2016 foi testemunhado por 3 bilhões de pessoas do planeta inteiro no final da cerimônia de abertura, no estádio do Maracanã: a pira olímpica, uma surpresa esteticamente preciosa, foi acesa de modo ainda mais surpreendente por Vanderlei Cordeiro de Lima, o atleta que liderava a maratona dos Jogos de Atenas, em 2004, quando foi agarrado pelo ex-padre irlandês Neil Horan. Vanderlei, que contava com uma vantagem de 150 metros à frente do segundo colocado, perdeu o ritmo após o ataque e terminou a prova com medalha de bronze. Meses depois, o Comitê Olímpico lhe concedeu a honrosa Medalha Pierre de Coubertin pelo espírito esportivo exemplar com que encarou o lamentável incidente.

Quanto ao ex-padre Neil Horan, afastado pela Igreja desde o final da década de 1990 por problemas psicológicos, sabe-se que passou dois meses preso em decorrência do episódio e ainda respondeu, algum tempo depois, a acusações de abusos contra crianças. Hoje com 69 anos de idade, Neil Horan continua tentando usar eventos públicos a fim de chamar as atenções do mundo para os seus alardes fanáticos sobre a volta de Jesus Cristo à Terra, evento do qual se considera profeta.

No dia seguinte à abertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro, Neil Horan deu uma entrevista ao jornal The New York Times dizendo que ficou “irritado” ao ver Vanderlei Cordeiro de Lima acendendo a pira olímpica. De quebra, acrescentou que é ele o responsável pela fama do atleta: “Eu olho para Vanderlei e penso ‘Você não estaria nem perto de ser uma estrela se não fosse por mim’”.

Quando li esta declaração, tive sentimentos involuntários nada cristãos a respeito de Neil Horan e os vi tomar forma nos adjetivos impublicáveis que mentalmente lhe dediquei. Depois, procurando controlar os instintos, concluí que, a bem da verdade, o ex-padre tem uma considerável dose de razão na sua avaliação sobre a atual “celebridade” de Vanderlei.

Eu, de fato, não me lembro do nome do maratonista que acabou levando a medalha de ouro em Atenas. Nem do nome do vencedor em Pequim, nem do ganhador em Londres. Acredito, aliás, que a grande maioria das pessoas não se lembrará do nome de um décimo dos medalhistas da atual Olimpíada no dia seguinte ao seu encerramento.

Em sua carta aos atletas, publicada às vésperas dos atuais Jogos Olímpicos, o Papa Francisco disse esperar que as Olimpíadas no Rio de Janeiro inspirem atletas e espectadores a “combaterem o bom combate“, conforme a expressão de São Paulo, e a buscarem como prêmio “não uma medalha“, mas sim “algo mais precioso: uma civilização na qual reine a solidariedade, fundada sobre o reconhecimento de que todos somos membros de uma única família“. Afinal de contas, a esmagadora maioria das pessoas se esquece da esmagadora maioria dos ganhadores de medalhas, mas o seu coração preserva, em algum lugar, ainda que inconscientemente, o impacto dos valores muito mais profundos que coroam os verdadeiros vencedores na vida.

É por isso, Neil Horan, que, para mim, você tem uma considerável dose de razão ao declarar que Vanderlei Cordeiro de Lima “não estaria nem perto de ser uma estrela” se não fosse por você.

Se não fosse por você, Neil Horan, o Vanderlei muito provavelmente teria conquistado aquela medalha de ouro, mas muitos de nós, hoje, não nos lembraríamos do nome dele, assim como não nos lembramos do seu.

Se não fosse por você, Neil Horan, o Vanderlei muito provavelmente não teria tido a oportunidade, naquela maratona, de mostrar ao mundo uma nobreza de caráter e um espírito olímpico raramente vistos no coliseu midiático e mercadológico a que se reduziu em nossos tempos a grandeza do esporte.

Se não fosse por você, Neil Horan, muito provavelmente não teríamos recebido um lembrete tão marcante de que, na vida de um verdadeiro vencedor, a recompensa genuína jamais virá na forma de um objeto material pendurado ao pescoço.

Que a sua pobreza de espírito, Neil Horan, encontre riqueza em Vanderlei Cordeiro de Lima. Que a sua “irritação”, Neil Horan, ao vê-lo reconhecido como muito mais que um mero ganhador de medalha de ouro, dê lugar a uma avaliação dos seus próprios valores. Que você, Neil Horan, possa um dia ser lembrado pelo seu nome e por algo belo que tenha feito, e não por algo que você um dia foi e hoje não é mais: o “ex-padre irlandês”, de nome esquecido, que atrapalhou Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona olímpica de 2004. E que a sua mente, Neil Horan, encontre finalmente a paz.

Que Deus o abençoe.

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Nota do Autor – “Ex-padre” é, bem sabemos, um termo questionável e, em sentido estrito, incorreto: o sacramento da ordem sacerdotal é indelével e todo padre será “sacerdos in aeternum”. O sentido da expressão, aqui, é o mesmo do uso popular: Neil Horan, embora nunca vá deixar de ser sacerdote pelo caráter do sacramento, é chamado, analogamente, de “ex-padre” por não mais exercer o ministério desde o seu afastamento formal pela Igreja.